Moisés Ávalos, chefe de imprensa da Nicarágua: «Quando virei dirigente, deixei de ser jornalista»

Por Philipe Rabelo Alves (Brasil) – Jornalista Jovem AIPS America

LIMA, Peru, 8 de agosto de 2019.- Conflito. Foi assim que Moisés Ávalos, chefe de imprensa da delegação da Nicarágua definiu a diferença entre o jornalismo e assessoria de imprensa. O secretário geral da AIPS América afirmou que muitas vezes tem informações que não pode divulgar. «Temos que ter atenção com as informações. Algumas podemos divulgar, outras nem tanto e esse é o maior conflito que eu enfrento, afinal sou jornalista e estou como mais um dirigente do Comitê Olímpico da Nicarágua», contou.

Moisés Ávalos (à esquerda), que também é secretário geral da AIPS América, em diálogo com jovens jornalistas em Lima.

Essa dubiedade sempre marcou a vida do dirigente. Quando jovem trabalhava de forma colaborativa em um jornal, trabalhou para uma rádio e uma agência de notícias.  Mas também começou a assumir trabalhos com a organização dos esportes, logo após os jogos de Winnipeg 1999, no Canadá, quando recebeu o convite do então presidente do comitê olímpico da Nicarágua, Julio Rocha. «Não é o mesmo ser chefe de imprensa e ser jornalista. Eu fiquei na dúvida se queria ir ou não. Eu queria seguir como jornalista, mas ao mesmo tempo queria trabalhar diretamente com o esporte» explicou.

Paixão.  Esse é o sentimento que retrata a relação do dirigente com o esporte.  Desde pequeno praticava Beisebol e foi um atleta frustrado, mas se via cada dia mais apaixonado pelos esportes e pela profissão de jornalista, que queria exercer. Encerrou o ensino médio aos 17 anos e se pré-matriculou para fazer jornalismo, mas acabou no serviço militar. «O sonho do jornalismo sempre me acompanhou, quando eu era pequeno, inventava as minhas histórias, narrava os jogos e me gravava para poder comparar depois com as narrações oficiais. O objetivo sempre foi melhorar», contou.

Após os dois anos de trabalho no militarismo, ingressou na faculdade de jornalismo e considera que a experiência no exercito o diferenciou dos demais repórteres, em função da disciplina. Essa paixão pela profissão, somada ao desejo de viver o esporte, concedeu a Moisés a oportunidade de passar por, até agora, 5 jogos olímpicos, sendo o primeiro deles em Sidney, nos anos 2000 e indo até a Rio 2016.  «Depois de viver como jornalista esportivo fui para a delegação, virei mais um dirigente do esporte, mas ao mesmo tempo fico feliz em saber como funciona o esporte a fundo. Eu vivo o esporte, eu conheço os atletas, eles me vêem como um suporte, um amigo que vai ajudá-los a resolver alguns problemas», explicou.

Dificuldade foi uma das marcas dos anos de assessor de imprensa da delegação na Nicarágua.  Moises lembra que no Pan de Santo Domingo, na República Dominicana houve um conflito entre o governo da Nicarágua e o Comitê olímpico do país, que havia pedido uma verba para levar 80 atletas para a competição. O governo negou, mas pagou um valor 150 vezes maior para um batalhão do exercito ir à guerra do Iraque, a pedido dos EUA.  A situação se desenrolou porque os deputados da esquerda do país conseguiram patrocinadores para a delegação esportiva. Em um jogo de beisebol a Nicarágua venceu a República Dominicana, equipe anfitriã do evento, por dois a zero. Na hora de entrevistar os jogadores, chega a coletiva do presidente, que havia negado o dinheiro para a delegação. «Alguns jogadores viraram-se de costas, outros foram embora. Esse foi o momento mais tenso da minha carreira, foi a pior coletiva de imprensa que eu participei.  Queria falar tudo, mas como dirigente e assessor de imprensa, não era possível, eu causaria mais danos ao comitê», revelou.

Saudade é uma das marcas da profissão.  Moises lembra que quando começou a trabalhar o jornalismo vivia outra época.  Para transmitir um jogo ao vivo pelo rádio era necessário alugar as linhas de telefone das pessoas que viviam próximas ao estádio. Também era necessário cabear toda a área, desde as casas até o local da narração. Usavam-se telex, fax. As fotos eram levadas para o aeroporto e entregues para algum passageiro que iria até o país de origem, onde alguém do jornal estaria esperando. Ele reforça que o jornalismo mudou muito com a tecnologia e que apesar das mudanças estruturais, a essência se mantém «Precisão é o que vence no jornalismo. É necessário falar pouco e falar certo», definiu.

Solidariedade é o que considera como mais importante no trabalho de assessor de imprensa. Moises afirma que quando se tornou dirigente do esporte acabou se vendo obrigado a ser mais empático com os jornalistas, que estão buscando informação para reportarem ao público. «A informação não é minha, ela é pública. Eu tenho que estar preparado para atender os jornalistas e poder dar todas as informações que eles me pedem. Isso vai desde responder a um WhatsApp, até fazer pesquisas para passar dados com precisão», revelou.

Ele também deixou uma lição importante para os Young Reporters da AIPS que almejam seguir a vida de dirigentes esportivos, sobretudo na área de imprensa.   «Nosso objetivo é deixar todos satisfeitos, atletas, público, jornalistas e dirigentes. Apesar de parecer impossível, o mais importante é ter boa-vontade e conhecer sobre todos os assuntos. Tem que saber o que dizer e quando dizer», concluiu.